Nos últimos anos, dado o agravamento da crise económica e financeira que Angola tem enfrentado, a moeda local tem se desvalorizado e o poder de compra das famílias e empresas nacionais, tem enfraquecido significativamente. Com o surgimento da Covid-19, este fenómeno acelerou-se e o kwanza encerrou 2020 a desvalorizar 25% face ao ano anterior, de acordo aos cálculos do Mercado a partir das taxas de câmbio de fim do período do Banco Nacional de Angola (BNA).
Entretanto, dado o aumento das exportações petrolíferas e a melhoria no ambiente comercial, a depreciação do Kwanza desacelerou nos dois primeiros meses deste ano quando comparado com o ano passado. Outros grandes fenómenos que influenciaram essa desaceleração são a inflação nos Estados Unidos da América, que consequentemente levou a caída do dólar e a tensão política entre a Ucrânia e a Rússia que temos visto nos últimos dias.
O Federal Reserve, banco central nos EUA, afirma que a inflação no mesmo aumentou devido os gargalos nas cadeias globais de abastecimento e outros factores transitórios. De acordo este, a pressão mais duradoura veio dos preços de bens que são afetados pelos problemas nas cadeias de produção, como veículos motorizados e eletrodomésticos. Nos Estados Unidos, um bom número de investidores já saiu das bolsas antecipando-se às altas taxas de juro que o banco central Norte Americano (Federal Reserve) anunciou devido à inflação. Prevê-se que os elementos que têm levado à caída do dólar continuarão durante 2022, dentre eles, as subidas da taxa de juro (que actualmente encontra-se nos 10,75%).
Por outro lado, temos os conflitos que se desencadearam entre a Ucrânia e a Rússia, que causou um impacto directo sobre a variação do preço do barril de petróleo, comercializado no mercado internacional. Segundo Rachel de Sá, conflitos geopolíticos costumam elevar a incerteza na economia global e, consequentemente, levam um aumento da aversão ao risco. Isso significa que muitos investidores podem preferir migrar seus activos para mercados mais seguros. A Rússia é actualmente um dos maiores produtores de petróleo, e na semana passada, o barril do petróleo Brent ultrapassou a casa dos 90 dólares, números estes que não se viam desde 2014. Este fenómeno tem ocorrido devido o excesso de demanda, dado os baixos estoques da OPEP e o agravamento dos conflitos geopolíticos vem pressionando ainda mais a commodity nos últimos dias.
De acordo com a análise da evolução do kwanza feita pela Lusa, a moeda angolana registou uma valorização de 15,2% em 2021, passando de 654,5 kwanzas por dólar no primeiro dia de 2021, para 554,9 kwanzas por dólar, a 01 de Janeiro deste ano, mas mesmo assim, não foi suficiente para anular o resultado negativo da série de desvalorizações desde 2018. No princípio de 2018, eram precisos apenas 165 kwanzas para comprar um dólar ao câmbio oficial, já em Janeiro de 2019, eram precisos 308,6 kwanzas por dólar, e um ano depois esse valor estava nos 482,1 kwanzas, registando-se uma nova desvalorização em 2020, que chegou ao fim com um dólar a valer 482,1 kwanzas, que era um dos grandes factores que conduziam cada vez mais a economia nacional à uma possível depressão.
O processo reverso de desvalorização do kwanza a partir dos finais de 2021 ocorreu inicialmente devido a desaceleração da evolução da Covid-19 e uma pequena melhoria da situação económica, que tem vivido recessão há cinco anos. O Governo afirma que a economia cresceu 0,2% em 2021 e há previsões de que este ano acelere para 2,4%. Porém, o economista Eduardo Manuel, garante que no curto prazo o kwanza não tem potencial para estabilizar, devido à actual conjuntura económica que o País atravessa que foi agravada com a pandemia da Covid-19. “No longo prazo, posso afirmar que sim, mas para que isso se verifique, todas as reformas estruturais viradas para a diversificação da economia, a fim de promover as exportações e aumentar as RIL, deverão ser executadas com rigor”, acrescentou.
Essas variações positivas do kwanza são pontos extras para a nossa economia, e os desejos são que cresçam de forma exponencial para se reverter a má situação económica que se tem vivido há mais de cinco anos. Porém, de nada vai adiantar se tivermos variações positivas da moeda local e os rendimentos não serem distribuídos de forma equitativa, nem mesmo se ainda existirem fortes barreiras para o desenvolvimento investimento privado. O Governo deverá criar bons planos estratégicos e aplicar políticas macroeconómicas assertivas para que haja estabilidade da nossa moeda e da nossa economia.